As Crônicas do Fim – Episódio 01: “Lazarus” (Parte 1)
by Gustavo Guilherme
Fugi de uma tribo há alguns meses. Eles já não tinham meios de sustentar tanta gente que os procurava em busca de socorro. Numa noite fria, abandonei meu posto de sentinela do portal de entrada de um pequeno vale a oeste da capital Millem e parti para o sul em busca de, talvez, um novo refúgio.
Em minha jornada de fuga e solidão, caminhei por um mês debaixo do sol sem avistar esperanças no horizonte. Descobrir uma possível razão de ainda estar vivo pode parecer tolo, mas é o que me move. Chame de fé, tolice ou suicídio, mas ainda tenho esperanças de que o mundo poderá um dia voltar a ser como antes… Antes do pandemônio causado pelas devastações da guerra… Antes das inúmeras doenças causadas pela escassez de água… Antes do caos.
Por algum motivo que, confesso, não sei explicar, não consigo me manter por mais de um ano em alguma tribo. Alguma força me move a procurar respostas, caminhos alternativos para viver em paz. E, nesta jornada aparentemente infame, perdi amigos, família e a antiga alegria.
Minha esperança é um silêncio pungente.
O que existe de mais plausível em minha caminhada é uma lenda, um boato que os ventos sussurram: a existência de um lugar ainda incólume à destruição causada pela guerra. Tal lenda ecoa silenciosa entre ruínas e poeira.
Em cada tribo, o tal lugar secreto tem um nome. Gaia, Halem, Éden, Paez, etc. Mas a essência não muda… E enquanto houver tal esperança nos olhos do povo, não conseguirei ignorá-la. Mesmo que Gaia não exista, ainda nos resta o sonho, ainda nos resta força para lutar pelo nosso maior tesouro: sobrevivência.
Sob o sol, caminhei sem parar até enxergar de longe fumaça e sombras distantes, advindas de possíveis escombros da cidade mais próxima.
O caminho que castigara meus pés era uma auto-estrada que, apesar de arruinada, ainda ligava a capital às rotas de Beira-Mar. Observei o mapa velho que carrego comigo desde criança e identifiquei meu destino.
No horizonte, perspectivas de um novo abrigo. Voltei a caminhar, calado e prudente, analisando sombras, vultos e destroços.
Foi pisando cauteloso entre asfaltos despedaçados que pensei ter visto um vulto, debaixo de um outdoor destruído à beira da estrada, pelo qual eu acabara de passar. Estaquei imediatamente e procurei novamente o vulto: nada.
A noite é fria e a única fonte de luz que ilumina a estrada, abrigando-me nas sombras das montanhas, é a que vem da lua cheia.
Ignorei a visão turva, afastei a sensação de medo que tentava tomar minha mente e observei a fumaça outra vez e retomei a caminhada. Segundo as informações do mapa, a cidade que se aproximava era Minos. Outrora, uma bela cidade; hoje, um provável labirinto de entulhos.
A antiga metrópole fora uma das primeiras a ser atingida pelo bombardeio ocorrido em abril de 2054, ano no qual a guerra tomara proporções mundiais. Alguns dizem que a cidade estava vazia e, por isso, o ataque fora inútil; outros, no entanto, afirmam que tropas de Millem ocupavam o lugar há meses, tendo escravizado grande parte dos habitantes de Minos e exterminando rebeldes sem qualquer piedade.
De repente, recordei ter passado um verão com meus pais ali, há muitos anos. Minos e suas praias eram o apogeu da beleza. Sempre lotada de turistas empolgados com a belíssima costa, natureza pura, o contraste perfeito com os edifícios enormes que enfeitavam a orla.
Abastecido de lembranças incompletas, porém encorajadoras, apressei os passos. Em poucas horas, meus pés cansados encontrariam o solo nostálgico de Minos.
A perspectiva de reencontrar possíveis memórias de uma infância distante me animou por alguns instantes. E tal ânimo me perseguiria por maior distância se, ao contrário do que aconteceu, meus olhos não tivessem encontrado os corpos…
Entre pedregulhos que iniciavam uma pequena formação rochosa à beira da estrada jaziam dois defuntos dilacerados. Um deles me encarava, como pedindo socorro, boquiaberto. Era o corpo de uma mulher. A parte superior de seu vestido azul estava rasgado, exibindo o colo desnudo ensangüentado da fêmea ruiva e parte do ferimento profundo no abdômen. Entre tripas, sangue e moscas varejeiras, reconheci alguns órgãos internos da mulher.
Recolhi minha mão a boca. Fechei os olhos e prendi a respiração por poucos segundos. O odor era insuportável.
Amedrontado, tentei ignorar o segundo corpo. Busquei forças para continuar a caminhada sem olhar para ele, mas algo me impeliu a observá-lo.
Meu ânimo, por fim, se fora. Com aproximadamente 70 centímetros, nu e coberto de carne apodrecida, o outro defunto era o corpo exânime de um bebê.
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Continua…
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4 Comentários em: “As Crônicas do Fim – Episódio 01: “Lazarus” (Parte 1)”























Marcus Paulo
Estou sem palavras…
Não sei como descrever o misto de sensações que estou sentindo agora,é algo inexplicável,porém eu sei que sempre acontece quando leio algo FANTÁSTICO!
Eu fiquei sem fôlego enquanto apreciava teu texto,a narração da crônica é tão maravilhosa que me fez ver as cenas que se desenrolavam,é como um filme na minha cabeça,estou me esforçando para tentar transmitir em palavras algo que só seria bem transmitido se eu te abraçasse cara… Foi sensacional!!!
Espero continuar tendo estas sensações(E outras novas…) nos próximos posts de “As Crônicas do Fim”!!! Torço por teu sucesso como escritor…
P.S.:Demorou… mas a espera foi recompensada!!! Kkkkkk – VALEU!!!
Pri
Nossa, muito bom.
Também torço pelo seu sucesso como escritor!
Samuel Varela - Crato/CE
Está excelente e vai ficando melhor a cada parágrafo…
Parabéns….
Michely Costa
Conheço o Territorio7 á pouco tempo, mas percebi o quanto é interessante este site. Estou gostando muito de ler As Crônicas do Fim. Vocês estão de parabéns mesmo, continuem assim.
Abraços.
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