As Crônicas do Fim – Episódio 02: “Lazarus” (Parte 2)
by Gustavo Guilherme
Recordo-me vagamente de algumas histórias fantásticas que costumava ouvir quando criança. Eram contos sobre heróis audaciosos que pelejavam a favor de seus ideais, mesmo que isso lhes custasse, no fim, a vida. Geralmente, tais enredos se passavam em “mundos esquecidos pelos deuses” e, inúmeras vezes, tinham finais felizes. Nós, entretanto, não temos heróis. Nosso mundo foi esquecido, mas não por algum deus irado e ciumento. Nossa terra foi abandonada por nós mesmos. Somos seus guardiões e, também, seus executores.
A escassez de água potável na Terra foi responsabilidade nossa. Poluímos tudo que podíamos. Em busca de riquezas naturais que satisfizessem as nossas necessidades fúteis, destruímos a maior delas. A água tornou-se impura na maior parte do planeta e o mundo adoeceu. Hoje, o único lugar onde se pode encontrar “água saudável” é nas cidades que foram ocupadas pelo governo, que agora tem nas mãos as respostas para todas as enfermidades sociais, econômicas e políticas da Terra.
***
Em poucas horas, meus pés reencontraram Minos. Atravessei o portal de entrada da cidade depois de ler a placa de boas-vindas, ironicamente intacta.
Em outros tempos, Minos estaria repleta de crianças sorridentes a correr pelas ruas. Seus pais, atenciosos e educados, provavelmente estariam por perto, cuidando de seus filhos com cautela e dedicação. Os becos mais sombrios da velha cidade estariam devidamente iluminados, as ruelas limpas e as calçadas cheias de gente. Minos era um dos lugares mais venerados do continente. A bela praia, ponto turístico da cidade, vivia cheia de surfistas e gente de toda a parte. Os prédios eram altos e quase sempre rústicos em algum aspecto. As casas tinham o formato padrão de toda grande metrópole pertencente ao conglomerado de cidades que chamamos de Ancor, eram quase todas grandes mansões cobertas por telhados coloridos e pintadas por fora de um azul claríssimo. Por dentro, as mansões eram mais comuns do que se podia imaginar: dois quartos, cozinha, dois banheiros, sala de estar e um quintal geralmente grande o suficiente para dar festas e reunir amigos nos fins de semana.
Minos era ímpar! E as famílias que ali moravam não seriam capazes de imaginar a bela cidade convertida em desgraça, poeira e destruição, como meus olhos constatavam agora. A plenitude urbana, sinônimo de organização e conforto, era agora o perigeu das metrópoles, a vergonha de Ancor.
Muros caídos, carros abandonados, geladeiras, microondas, computadores e alguns brinquedos agora cobrem ruas e becos – ou o que restou deles. O asfalto destruído obstrui a passagem do que outrora era a avenida principal. Postes de iluminação pública jogados ao chão, paredes inteiras sobre a calçada em pedaços; telhas, televisores e antenas parabólicas agora adornam os escombros de Minos. Todos os caminhos estão cobertos de lixo e destruição. Até onde os meus olhos conseguem enxergar, não há uma saída sequer, Minos transformou-se em uma terrível fortaleza de entulhos. Agora, este parece o abrigo perfeito para fugitivos e desertores da guerra.
Em passos lentos, me aproximei de um pequeno monte feito de eletrodomésticos defeituosos e sentei. A esperança de retomar recordações saudáveis da velha infância já não existia. Só havia agora o luto pela cidade, um familiar sentimento de solidão e o silêncio.
Por poucos segundos, a quietude do lugar me invadiu. Pensei ter sentido algo semelhante ao que chamam de “paz”, mas, sinceramente, não sei dizer se realmente era este o sentimento. Afinal, em tempos de guerra constante, sentir alívio, sossego ou esta tal “paz” é assumir-se um hipócrita, indiferente a situação decadente do mundo.
Hoje, a paz não passa de uma lenda. Utopia.
Calado, fechei os olhos e respirei o aroma estranho da cidade. Quando reabri as pálpebras, um vulto bailou depressa, distante, entre as ruínas do asfalto. Imediatamente, meti a mão no bolso interno do casaco. Ao lado do mapa, meus dedos alcançaram pequeninos objetos que, por segurança, levava comigo: uma lanterna, uma adaga e uma jóia rara que herdei de meus pais. Agarrei a miniatura de espada com a mão direita, levantei-me do monte de entulhos e, sorrateiro, caminhei em direção ao vulto.
A adaga, no fim das contas, não mataria ninguém. Era pequena demais para tarefa tamanha. Mas, dependendo da força do golpe, seria capaz de causar ferimentos sérios. Acertando o ponto certo, imobilizaria qualquer guerreiro.
– Tem alguém aí? – minha voz soou patética.
Silêncio.
Meus olhos caçavam movimentos entre os escombros. Meus ouvidos dedicavam-se a examinar qualquer ruído.
Sem notar, pisei em um brinquedo infantil que apitou assim que esmagado pelos meus pés. Assustei-me e só não inferi um golpe no boneco de borracha porque outro som me chamou a atenção, um grito distante vindo, talvez, do interior do que restara de algum prédio destruído.
Estúpido, repeti a pergunta, gritando ao vento:
– Tem alguém aí?
Atrás de mim, algo se moveu. Virei depressa, empunhando a adaga com força. Nada além de ruínas e um novo silêncio, repentino e amedrontador.
Me mantive parado em posição de batalha por um minuto. Qualquer escombro era sinal de presença inimiga; qualquer fragor, uma possível ameaça.
Das sombras, ao meu lado, entre aparelhos de TV, computadores e asfalto arruinado, um sussurro se fez ouvir. A princípio, pareceu-me um pedido silêncio de socorro. Precavido, aprumei a adaga nas mãos e decidi me aproximar com cautela.
O som se repetiu, mas agora, já não parecia um sussurro, o novo tom era de ameaça.
Parei. Agachei-me lentamente, com os olhos bem abertos, sentidos atentos, ouvindo outra vez um temível silêncio.
– Quem está aí? – indaguei.
Na escuridão entre ruínas, dois pequenos círculos brilharam no ar. Com eles, o som apavorante de um grunhido animal. Prendi a respiração, apertei o cabo da pequena arma em minha mão e, instintivamente, recordei-me da voz rouca de meu pai ensinando-me golpes de defesa numa manhã de domingo enquanto caçávamos javalis.
As lições de meu velho seriam úteis agora.
Das trevas, dentes afiados e patas gigantes cresceram diante de mim, era um ataque. Um ser medonho pulou em meu colo com imensa força, derrubando-me ao chão. Na queda, deixei a adaga cair. Amedrontado, fechei a mão esquerda no pescoço do monstro, tentando afastar a aterradora proximidade de sua cabeça gigante. Era um Lobo Fenrir, ainda jovem, mas terrivelmente imponente e feroz. Não fosse o fato de a guerra ter destruído não só as metrópoles mas também os grandes campos e florestas, jamais saberia explicar o que um ser das selvas fazia na cidade. Um lobo como aquele era perigoso, raro e cruel. Fenrires são animais lendários, carnívoros e impiedosos. Diz a lenda que tais seres sobreviveram aos anos em silêncio, abrigando-se em tocas nas florestas mais densas e escuras, adaptando-se às mudanças climáticas e aprimorando técnicas de caça cada vez mais silenciosas e mortais.
Enquanto minha destra tentava alcançar a adaga, minha mão esquerda tremia agarrada à garganta de meu inimigo selvagem. O animal grunhia balançando a cabeça e emitindo um som grave e forte que, à medida que ressoava em meus ouvidos, uma pequena fumaça escura saía pela bocarra arreganhada do lobo.
Ao sentir o odor, uma leve tontura me sobreveio. Desesperado, desisti de alcançar a faca. Agora, minhas duas mãos enforcavam o bicho, determinadas a matá-lo estrangulado. Minha visão, porém, tornou-se míope de repente e senti aos poucos a força esvair de meus punhos.
Só podia ser aquela fumaça… A maldita fumaça era, provavelmente, algum tipo inebriante de veneno.
Enfraquecido, vi o animal vencer minhas mãos, desprender-se de meu golpe estrangulador e me encarar antes do último ataque. Seus olhos, vermelhos e brilhantes, contrastavam bem com os pelos negros que cobriam todo o seu corpo longo. Suas patas, outrora suspensas pela força de minha investida, agora caíam sobre meu peito… Senti suas garras me a pele, abrindo uma ferida em meu tórax. Devagar, o lobo abriu a boca. Pude ver seus dentes enormes se aproximarem rapidamente de mim, mordendo meu ombro com violência, divertindo-se com meus ossos e juntas. Ouvi o som terrível de algo se despedaçando dentro de mim e fechei os olhos. A dor, enfim, transformou-se em um grito estridente e desesperado – era meu pedido de socorro.
Abri novamente os olhos. O monstro me encarava com a boca pingando sangue… o meu sangue. Um vômito tentou sair pelos meus lábios, busquei forças para impedi-lo, mas não havia força alguma. Enquanto o líquido quente e imundo escapava de minha boca, meus olhos buscavam alguma esperança ao meu redor.
De repente, um estampido seco e breve ecoou em meus ouvidos. Um segundo depois, o fenrir despencou morto ao meu lado, coberto de sangue, com um enorme buraco na cabeça.
Quase sem forças, vi um novo vulto. Um homem caminhando lentamente em minha direção, carregando o que parecia ser uma arma longa em sua mão esquerda.
Pensei em agradecer, dizer-lhe qualquer sussurro de gratidão, oferecer alguma recompensa por salvar-me do monstro, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, desmaiei.
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Continua…
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2 Comentários em: “As Crônicas do Fim – Episódio 02: “Lazarus” (Parte 2)”

























Marcus Paulo
OH LORD!!! Clap Clap Clap (Palmas…)
Tudo esta ficando cada vez melhor,cheio de um suspense maravilhoso,os mínimos detalhes das cenas fazem um filme rodar em minha cabeça… FANTÁSTICO!!!
jefferson
parabens muito boa, to virando leitor assiduo do blog so por causa desses contos.
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