Eclipse Perdido

por Abner Arrais
Todos têm sonhos. Alguns preservam os mesmos sonhos desde crianças, outros os deixam morrer. Sou um desses que sonham como criança. É quarta-feira e meu sonho para hoje é realizar um “sonho de criança”: ver um eclipse.
Meu despertador toca as oito, ligando o rádio. Gosto de saber o que irá acontecer no dia para me preparar melhor para ele. O me informa: “Ocorrerá hoje, às 17h30 um eclipse solar, mas um nevoeiro ameaça estragar o espetáculo”.
“Raios!”, resmungo para mim mesmo. “Uma boa notícia seguida por uma péssima”. Me acalmo e tento me motivar a não desistir meu sonho de infância. Fico ansioso e tento arrumar a casa para acalmar os ânimos, mas não levo muito jeito com isso e então desisto.
A hora do eclipse se aproxima e decido ir com meu cachorro até a Praia do Arpoador. O som das ondas me tranquilizam. Chego a orla e o som da multidão me aflige uma leve dor de cabeça, parece que todos vieram ver o eclipse. Mas as pessoas abrem espaço para eu passar como se eu fosse alguma autoridade importante.
O relógio apita 17h30 e um silêncio paira sobre a praia. É possível apenas ouvir o som das ondas batendo nas pedras e minutos depois algumas reclamações pelo eclipse não ter ocorrido ainda.
De repente, palmas começam a bater e cães começam a latir. Então me lembro do meu tomento de cada manhã: sou cego.
Perdi o eclipse e talvez outras dezenas de sonhos, mas que ninguém diga que foi por falta de vontade ou de ação. Não. Isso nunca poderão falar de mim. Essa alegria, nenhuma deficiência roubará.
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Para todos aqueles que preferem ficar cegos do que tentar receber a Graça e ver o Magnífico (ou receber a alegria Dele tentando vê-lo, mesmo não conseguindo por causa das imperfeições).
Amores e Desamores
por Gustavo Guilherme
Há, sem dúvidas, um equívoco em nosso modo de comemorar o dias dos namorados. Somos vítimas de nós mesmos, de nossa criatividade dramática e das nossas hipérboles intermináveis. Compramos presentes, enchemos a mulher de beijos e, depois, exigimos recompensa. Qualquer recompensa.
Ouso dizer que é tudo culpa de Shakespeare e sua ideia de amor. A culpa é de Romeu. A culpa é de Julieta. Privaram-se das agruras do amor, das dificuldades da vida a dois, das contas no fim do mês, dos ciúmes bobos, da cara amassada ao despertar pela manhã, da estranheza de acordar ao lado de um desconhecido nos primeiros anos de casados, e mais desconhecido ainda anos depois. Mas audácia pior cometeu quem disse, sem juízo, sem pudor, que este deveria ser o ideal do amor. Read more
Esta Casa
























