Pipoca&Letra 015. “Super 8″

por Gustavo Guilherme

Homenagear outros tempos, artistas ou diretores da sétima arte não é algo novo para o cinema norte-americano. Inúmeros filmes fazem referências a atores, atrizes, trilhas sonoras, etc. Mas são poucos os que se assumem publicamente como uma total homenagem. Super 8, por exemplo, é feito de referências do início ao fim e, pra deixar a coisa toda ainda mais interessante, traz no próprio cartaz o nome de seu homenageado: Steven Spielberg, produtor do filme.

“Super 8” nos conduz a uma cidadezinha de interior (bem como em alguns dos filmes já citados de Spielberg), onde acompanhamos Joe Lamb (Joel Courtney), um adolescente que perdeu a mãe em um acidente, e seus amigos metidos em uma tarefa interessante: filmar um curta metragem para um certo festival de cinema. Durante as filmagens deste curta (que conta inclusive com zumbis no elenco), Joe conhece Alice Dainard (Elle Fanning) e se interessa pela bela menina. Entretanto, quando tudo parece mera diversão, Joe e seus amigos presenciam um espetacular acidente de trem que por pouco não os mata. A partir daí, mistérios surgem e o clima de homenagem fica ainda mais intenso.

Não tive a chance de ver no cinema “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Os Goonies” ou “ET – O Extraterrestre”, obras claramente homenageadas em “Super 8″, mas cresci assistindo-os pela TV. E tais experiências foram extraordinárias, contribuindo decisivamente para meu gosto pelo cinema. A proposta do filme dirigido por J. J. Abrams, entretanto, é prestar homenagens evidentes a outros filmes do mestre Spielberg, inclusive ao inesquecível “Jurassic Park” que, vejam só, foi meu primeiro filme na sala escura (ainda criança e morrendo de medo dos dinossauros). O empenho em citar as obras do homenageado é tamanho que, em alguns momentos, J. J. Abrams parece ter se esquecido de dar um toque mais original a sua história, optando por transportar todo o universo dessas obras para seu “Super 8”, transformando assim sua obra em um conglomerado de referências com cheiro de nostalgia.

O que poderia ser um equívoco torna-se, na verdade, um grande acerto do diretor. Ver a relação divertida entre os quatro garotos e a ingenuidade em seus atos nos remete imediatamente ao mundo inocente de “Os Goonies”. A mistura de inocência e coragem do protagonista nos lembra e muito o pequeno Elliott, de “ET – O Extraterrestre”. O suspense de cada mistério que se forma durante a trama, incluindo segredos de estado, desaparecimentos e o climão “alienígena” do filme denuncia a referência ao já citado “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”. Além de tudo isso, algumas cenas onde o diretor parece esconder o seu monstro são muito parecidas com “Jurassic Park”. Tais citações e referências nos transportam imediatamente a outros tempos, tempos de aventuras originais e divertidas, tempos de Spielberg! Read more

Pipoca&Letra 014. “VIPs”

[AVISO DE SPOILERS! Se você ainda não viu "VIPs", recomendamos que não leia este post, ou o faça por sua própria conta e risco]

by Gustavo Guilherme

Já afirmei em texto publicado em outro blog que não sou o maior fã de cinema nacional. Não deixo de reconhecer, entretanto, que temos nossas pérolas… e “VIPs” é, sem dúvida, uma delas.

A fita nos conta a história de Marcelo Nascimento da Rocha, que desde criança sempre teve a figura do pai, um bem sucedido piloto de avião, como exemplo a ser seguido. Movido por esta ânsia de ser igual ao pai, o garoto cresce e faz da idéia de pilotar o seu objetivo de vida. Passando por tráfico de drogas, furto e identidade falsa a personagem que ganha vida na pele de um excelente Wagner Moura fará o que for preciso para alcançar seu alvo, ou ser alcançado por ele.

O roteiro excepcional de Bráulio Mantovani e Thiago Dottori, baseado no livro “VIPs – Histórias reais de um mentiroso”, de Mariana Caltabiano, dialoga sem muitos conflitos com a linguagem sutil adotada pelo diretor Toniko Melo. Seja pelo modo discreto como expõe os conflitos de identidade de “Marcelo, Dumont, Carrera, Henrique” e a decepção silenciosa de sua mãe ou pela aflição que nos acomete ao vermos do começo ao fim da película, na meticulosa construção do protagonista, o roteiro que nos é entregue em tela é digno de quantos elogios forem necessários. Excelente! Read more

Pipoca&Letra 013. “Cisne Negro”

por Gustavo Guilherme

O cinema me encanta desde que eu era criança. Sou extremamente apaixonado por ele desde meus 12 anos e, a partir de então, assistir filmes tem sido meu maior hobby e uma das minhas mais fortes paixões.

Tenho em casa uma numerosa coleção de DVDs originais que coleciono desde meus primeiro emprego. Quando sinto saudade de um certo filme que admiro, lá está ele em minha coleção, pronto para ser visto outra vez.

Meu maior pesar, no entanto, é notar que alguns dos clássicos que tenho em minha coleção, eu não tive a chance de ver no cinema. “De volta para o futuro”, um dos meus filmes favoritos, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” ou “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” – obras que até hoje estão no topo de minha lista de preferência – não foram vistas por mim na tela grande, pois não tive esta chance, e isto me entristece de alguma forma. Read more

Pipoca&Letra 012. “O Vencedor”

por Gustavo Guilherme

Ao contrário do que se pode pensar, “O Vencedor” não é só mais um filme sobre um lutador que dá a volta por cima. O filme consegue abranger temas muito mais fortes e de uma maneira séria e muito interessante.

Eu, que não canso de confirmar pra quem quiser ouvir que sou extremamente fascinado pelo cinema e seus efeitos na vida prática de quem realmente se interessa por ele, confesso que vibrei e me emocionei muito enquanto assistia ao excelente filme protagonizado por Mark Walberg, bastante competente no papel de Micky Ward.

Dirigido por David O. Russel, “O Vencedor” nos conta uma história (baseada em fatos reais) que transcende os limites do boxe. Dicky Ecklund, interpretado por Christian Bale (que provavelmente levará o Oscar por sua atuação completa e sensível), é meio-irmão de Micky e já teve sua chance no boxe, mas a desperdiçou totalmente e, agora, está afundado no vício: o crack tomou conta de sua vida e o tirou de vez dos ringues. Ainda assim, Dicky está diretamente envolvido com a carreira decadente de seu meio-irmão, assim como toda a família. A mãe, Alice Ward, interpretada pela talentosa atriz Melissa Leo (que também concorre ao Oscar pela bela atuação), é a empresária de Micky.

Este é um dos pontos altos em “O Vencedor”: o modo como a família de Micky, apesar dos problemas evidentes, se completa de alguma forma. É, até certo ponto, divertido e emocionante ver a preocupação de toda a família quando Micky se apaixona e decide trazer para o convívio familiar sua nova namorada Charlene, interpretada por Amy Adams – outra indicada à estatueta da Academia.

Com um roteiro linear e de ritmo constante, o filme exibe com extrema delicadeza os conflitos pessoais de todos (sim, todos!) os personagens principais. Dicky e seu problema com as drogas, Alice e seu autoritarismo, Charlene e o fato de ser deixada de lado pela família do namorado, Micky e suas muitas incertezas, etc.

“O Vencedor” acerta em cheio, como se fosse um belo cruzado de direita, quando tenta (e consegue) ser intimista. Talvez não tão profundamente, mas o suficiente para nos levar a torcer, vibrar e se emocionar a cada cena.

Assim como uma boa luta de boxe, o filme parece ter sido dividido em “Rounds” – em alguns, os personagens apanham, mas é belíssimo ver que, no momento seguinte, lá estão eles de pé outra vez, prontos para continuarem a luta: eis aqui o ponto alto e a mensagem central da película. Como diria Rocky Balboa, “ninguém bate tão duro quanto a vida, mas não se trata de bater duro, se trata de quanto você agüenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de agüentar e continuar tentando – é assim que se consegue vencer”.

No fim, “O Vencedor” é um filme de princípios, coragem e perseverança. Mais do que recomendável: é obrigatório!

Um grande filme, com atuações grandiosas e cenas memoráveis! Você não vai se esquecer tão cedo do que verá.

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Pipoca&Letra 011. “A Rede Social”

Se você já apertou o botão “Curtir” localizado no cabeçalho de cada post neste blog, deve no mínimo ter consciência da existência do Facebook, uma rede social lançada em 2004, fundada por um rapazinho um tanto arrogante chamado Mark Zuckerberg, ex-estudante de Harvard.

No começo, ter um perfil no Facebook só era possível se você fizesse parte do seleto grupo de estudantes de Harvard. No entanto, com o passar dos anos, o site cresceu e é, hoje, a rede social que mais cresce no planeta. Atualmente, são mais de 220 milhões de usuários ativos e mais de 100 milhões de usuários se conectam ao Facebook pelo menos uma vez por dia, dentre os quais, aproximadamente 30 milhões atualizam seu status diariamente. Além disso, um número absurdo de fotos, que supera a marca de 850 milhões, são enviadas mensalmente ao site. Se o Facebook fosse um país, e se considerássemos seus usuários como seus “habitantes”, ele seria o 4° maior do mundo.

Dito isto, afirmo sem pensar duas vezes: “A Rede Social” é um filme importante e, sem sombra de dúvidas, foi um dos melhores que tive a chance de ver neste ano que passou. Afinal, não é todo dia que temos a oportunidade de ver nas telonas a história do surgimento de um “país” virtual.

“A Rede Social” é um filme ágil, de diálogos intensos e rápidos, repletos de fúria, paixão e medo. Cada cena desperta em nós, espectadores, o desejo de conhecer mais, e nos deixamos levar pela curiosidade. Questões importantes sobre direitos autorais, privacidade e, principalmente, a fragilidade das amizades baseadas nas condições materiais são destaque durante toda a película. Vemos em tela a maior criação da vida de um jovem de futuro promissor e, diante do que nos é apresentado, concordamos que Mark Zuckerberg é um gênio.

Abusado e arrogante, Mark é interpretado pelo jovem ator Jesse Eisenberg, que encarna bem o estereótipo nerd canastrão e convence bem no papel principal do filme. Já Andrew Garfield (o próximo Homem Aranha das telonas) não parece muito seguro no papel de Eduardo Saverin, co-fundador e principal “patrocinador” do projeto que se tornaria no Facebook como o conhecemos hoje. Uma fotografia convincente e cenas de tirar o fôlego tornam a produção em um filme grandioso e imperdível (destaque para a cena da competição de remo – assistam e babem, companheiros cinéfilos). A participação do cantor Justin Timberlake como Sean Parker é um tanto quanto antiquada, mas necessária para o clima competitivo que se cria e que faz da obra cinematográfica dirigida pelo competende David Fincher (“O Clube da Luta”) um filmaço!

E foi aqui, neste aspecto, que comecei a visualizar um grande paralelo entre a fita e algumas tristes realidades da vida cristã.

Se em “A Rede Social” é evidente o modo extremamente competitivo como o produto “Facebook” evolui, o que dizer da natureza igualmente competitiva de nossos líderes, músicos, pastores, etc?

Nossos templos estão recheados de competitividade exacerbada. Lutamos por cargos, status, títulos e aplausos. Cobiçamos a vaga no ministério de louvor e, se acharmos “justo”, vamos pelejar com unhas e dentes para tirar o “Irmão Fulano” da posição na qual foi colocado. Cansei-me de presenciar fatos espantosos como brigas de cunho verbal, altamente ofensivas, dentro das igrejas e, em 99% dos casos, o motivo era o mesmo: poder. Ouvi histórias sobre pastores que envoregonham outros em convenções e reuniões da liderança de determinada denominação, e até mesmo histórias sobre embates físicos que começaram dentro da igreja e terminaram na delegacia mais próxima. Muitas foram as vezes em que vi músicos exaltados declarando em alta voz serem melhores que outro – “Eu toco melhor, canto melhor, etc”. Inúmeras pregações me entristeceram ao ponto de querer deixar o templo ao ouvir declarações como “eu sou…”, “eu faço…”, “eu tenho o poder de…”, “eu sou perfeito e não erro” e tantas outras baboseiras e jargões que em nada nos edificam. O engrandecer-se diante da congregação auto denominando-se “ungido” e “intocável” consistem em situações comuns, em algumas igrejas que conheço pessoalmente.

Amor ao próximo… Até quando o mundo enxergará este lema como um mito entre nós, cristãos?

“A Rede Social” é um filme essencialmente sobre intrigas e uma busca inconseqüente por poder e dinheiro. A ambição de Mark Zuckerberg não o levou a falência financeira, mas o faliu de amizades. Ao final do filme, sobram a genialidade de um jovem arrogante e audacioso, a criação genial de uma vida e o fruto financeiro desta empresa que hoje vale  50 bilhões de dólares. Quanto às amizades que vemos Mark perder desde o início do filme, não voltarão nem por todo dinheiro do mundo.

E quanto a nós? Será que somos competitivos demais para amar ao próximo como a nós mesmos?

Pense nisso e não perca “A Rede Social”… um filmaço!

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by GG

Pipoca&Letra 010.”Um Sonho Possível”

Assim como aconteceu comigo ao assistir “Precious”, em Um Sonho Possível (The Blind Side) as espectativas eram muitas, principalmente pela premiada atuação de Sandra Bullock. Me preparei com cuidado e diligência, tentando assistir e analisar o filme sem exageros, como um bom observador, procurando os pontos altos e baixos do filme. E confesso que não foi tão difícil analisá-lo sem ser atrapalhado pelas emoções, já que elas nos são apresentadas de maneira tão sutil e delicada.

“Um Sonho Possível” nos conta duas histórias que acabam se tornando uma só. De um lado temos Michael Oher (Quintom Aaron) , um adolescente negro que sempre teve dificuldades na vida. Sua mãe biológica é uma mulher envolvida com drogas que gerou 12 filhos e que mal se lembra de quem é o pai do jovem Michael. Com dificuldades de aprendizado, Big Mike, como é conhecido, consegue uma vaga em um colégio por causa de seus dotes esportivos, mas ainda permanece desabrigado.

Do outro lado, Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock) é uma mulher bem sucedida, boa esposa e boa mãe.

As duas histórias se encontram quando Leigh Anne encontra Michael perambulando sozinho pela rua, usando apenas uma camisa polo e uma bermuda em pleno inverno. Ela, sem pensar duas vezes, decide levá-lo para casa.

À partir deste momento, o que poderia não passar de uma noite de caridade acaba se transformando em um relacionamento repleto de amor, carinho, compaixão e união – tudo que uma boa família deveria ter.

Agora Michael Oher, além de ter uma família, tem também uma nova esperança para sua carreira: o futebol americano. No entanto, para conseguir uma bolsa e continuar com este sonho, ele precisa melhorar o que sempre teve dificuldade: seu aprendizado.

Bem humorado, honesto, íntimo, sincero e belíssimo, “Um Sonho Possível” é daqueles filmes que não se vê todo dia por aí. Apesar da narrativa lenta, o filme nos embala com sua suavidade e com a maneira pura e tenra que se propõe a nos contar sua história. É uma daquelas pedras preciosas que, quanto mais olhamos, mais admiramos e reconhecemos seu valor.

Quanto à atuação de Sandra Bullock, não há nada a dizer que o Oscar por si só não signifique. Impecável, gentil e na medida certa. Sem sombra de dúvidas, não é a mesma Bullock que conhecemos de outros filmes. A maturidade em tela é de deixar qualquer crítico ferrenho de queixo caído, apesar de não haver uma grande cena que necessite de um enorme talento para acontecer – o que vale é entender Sandra Bullock como personagem, sem perceber que ás vezes nos esquecemos que é uma atuação, tamanha sinceridade que nos é passada pela sua excelente atuação.

“Um Sonho Possível” me fez enxergar solidariedade e esperança de um modo tão educado e simples, que não há como não tirar o chapel, ficar de pé, deixar cair as lágrimas que segurei durante o filme inteiro e aplaudir com todas as minhas forças – uma luz no fim do túnel sempre deve ser reverenciada, seja com palmas, seja com lágrima, e eu não me negarei a cumprir este protocolo: eis aqui minhas palmas, minhas lágrimas e toda minha admiração.

by GG

Pipoca&Letra 009.”Karate Kid”

Ser surpreendido com um remake, nos dias de hoje, é algo quase mágico – é a união das ilusões que nos levam a crer na história que nos é contada a cada frame. Depois de anos venerando aquela cena antiga, aquela fotografia ultrapassada ou aquele diálogo inesquecível do original, o medo toma conta de qualquer cinéfilo quando vem a notícia de uma sequência, reboot, remake ou qualquer outra coisa relacionada a tão preciosa película.

Agora, Dre (Jaden Smith), um menino americano que perdeu o pai, precisa se mudar com a mãe para um lugar totalmente desconhecido: a China. Em um novo país, enquanto conhece uma nova cultura e tenta se adaptar, cheio de problemas,o garoto passa por problemas quando conhece uma menina e, ao tentar se aprozimar dela, acaba levando uma bela surra de um chinezinho invocado metido a fortão. A dificuldade de adaptação, a agressividade com a mãe, a decepção com o lugar onde mora, o fato de não conseguir entender nada do que passa na TV e a batalha para conseguir novos amigos nos aproxima do personagem “Xiao” Dre, até que ele mesmo, em seus conflitos e receios, nos apresenta ao estranho e misterioso Sr. Hans (Jackie Chan), que, em uma cena digna dos mais incríveis filmes de ação, acaba salvando o menino, que estava sendo perseguido por seus algozes pelas ruelas movimentadas de Pequim, e torna-se seu professor de Kung-Fu.

Eu, que aprendi a gostar de “filmes de luta” com o velhinho barbudo e seu discípulo atrapalhado, o quase-bem-humorado Sr. Miyagi e o menino Daniel Larusso, confesso que tive muito medo de encarar Jaden Smith (cada vez mais parecido com seu pai Will Smith) e Jackie Chan em uma versão Kung-Fu daquela história que me conquistou desde sempre.

Mas o que me encantou lá, no original de 1984, não poderia estar presente aqui, no remake de 2010, não com a mesma cara, não com a mesma roupagem e – pensava eu – não com a mesma magia… que grande mentira!

Karate Kid não foi refilmado, refeito ou reaproveitado em uma nova versão: ele foi recriado! Mas não como com ingredientes e amargos em uma receita de doce – o remake foi feito com carinho, respeito e graciosidade. O menino Dre (Jaden Smith) é muito mais carismático que o estabanado Daniel Larusso. O enigmático Sr. Hans (Jackie Chan) é tão interessante e divertido quando o velho Miyagi eternizado por Pat Morita. E ainda melhor: se o filme de 84 parecia raso, sem qualquer profundidade, o erro foi corrigido – Karate Kid 2010 é imensamente mais profundo do que seu antecessor.

Se revisitar a fotografia antiga e suave do clássico dos anos 80 é uma experiência agradável, surpreender-se com as cores que se intensificam a cada cena, participando delas de alguma forma, é deslumbrante. Aliás, ouso dizer que é a melhor fotografia que vi nos cinemas este ano: fantástica! Repare com carinho, por exemplo, nas cores que constroem a cena em que Dre entra pela primeira vez na academia de artes marciais com sua mãe – é de deixar qualquer um de boca aberta.

Se em 1984 a trilha sonora era encantadora, aqui não deixa nada a desejar. É igualmente competente. O roteiro, intenso em alguns pontos e relaxado em outros, não deixa de ser inteligente e agradável, mesmo que agora deixamos o caratê de lado e abraçamos o kung-fu que já conhecemos dos filmes do Jackie Chan.

Ver os mesmos pilares apresentados no original representados com respeito e honra nesta nova obra é de arrepiar. A dinâmica de ensinar a arte marcial através de uma tarfea que parece ser inútil se repete com maestria – a velha cena de Daniel Larusso pintando a cerca dá lugar ao jovem Dre tirando, “guardando” e recolocando o casaco – e uma pitada dramática nos garante conhecer melhor os personagens neste novo filme. Enquanto o romance de Larusso com Ali Mills é bobo e repleto de clichês, a relação de amizade e carinho entre Dre e a menina chinesa que ele acaba conhecendo na China é graciosa e apresentada com delicadeza – ultrapassa as barreiras de um “primeiro amor” ou de um namorico de criança e esbanja lealdade, humildade e afeto acima de qualquer jargão.

A magia presente na cena final dos dois filmes é igualmente um desbunde! Seja o golpe da garsa de Daniel “San” ou a “versão 2.0?, de “Xiao” Dre.

Sem medo, agora, recomendo sem nenhum peso na consciência: abracem Karate Kid. Revisite sim o filme de 1984, mas não tenha medo de se surpreender com um dos remakes mais respeitosos e bem feitos que este cinéfilo teve a chance de ver nestes últimos anos.

Obrigado por encantarem minha infância, Pat Morita e Ralph Macchio. E obrigado, Jackie Chan e Jaden Smith, por revitalizarem este encanto e eternizá-los mais uma vez.

Obrigado.

by GG (Publicando também no blog Caverna e Ponto)

Pipoca&Letra 008.”A Origem”

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Os que me conhecem há mais tempo sabem o quanto é difícil me ver surpreso com um filme.
No entanto, Christopher Nolan já tinha conseguido me surpreender em outros de seus longas, como no incrível “Amnésia”, ou no competente “Batman Begins”, no impecável “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e até no fraco (opinião minha) porém bem feito “O Grande Truque”.
A trama gira em torno de um grupo de ladrões especializados em um tipo de roubo: eles invadem sonhos e furtam ali os segredos da vítima. Don Cobb (Leonardo DiCaprio), um homem com alguns segredos escondidos em seu passado, é o líder deste grupo, que tem, dentre outros integrantes, um ajudante importante na trama, vivido pelo excelente ator Joseph Gordon Lewit (“500 Dias com Ela”). Após um destes trabalhos, porém, a equipe precisa ser “reconstruída” para que eles possam fazer o seu último trabalho que, ao contrário do que eels estão acostumados, não se trata mais de tirar de  alguém um segredo através dos sonhos, mas de implantar na vítima uma ideia – fazer uma inserção.
“Inception” é bem executado e, ao contrário do que alguns disseram nos últimos dias, não é um filme difícil de se compreender – a não ser que você não esteja disposto a prestar atenção a um filme cerebral e inteligente.
Com um roteiro bem dinâmico, “A Origem” me pegou por vários motivos, dentre os quais preciso destacar um que eu estou acostumado a valorizar muito: quando um filme parece debochar dos espectadores, explicando de 5 em 5 minutos o motivo de tal acontecimento, eu fico irritado – o que não acontece aqui. A história nos é contada de maneira compreensível e sempre confiando na nossa inteligência, o filme não nos trata como completos idiotas, forçando a barra em momento algum, e isso é um dos motivos de eu dizer que este é SIM um filme grandioso, apesar de ainda não ser dos melhores de Nolan.
O elenco trabalha bem e é responsável pela boa condução do enredo, mas Ellen Page, que tem uma certa importância para o desenvolvimento da trama, está terrivelmente apagada, enquanto outros personagens, que talvez não devessem ter tanta importância, roubam a cena constantemente. A excelente Marion Cotillard dá seu show particular, passeando com classe entre uma personagem de amada à odiada entre uma e outra cena. Leonardo DiCaprio mostra o porquê de ser um dos atores mais interessantes da atualidade, fazendo com originalidade um papel muito semelhante ao vivido por ele mesmo em “A Ilha do Medo”. Joseph Gordon Lewit prova sua competência como ator mais uma vez, e consegue surpreender em alguns momentos. Além deles, o restante do elenco cumpre sua função com competência.
As cenas de ação são fantásticas e os efeitos especiais são excelentes e totalmente orgânicos – nunca são usados por motivos banais, sempre à favor da trama – e nos maravilham com cenas impecáveis e impressionantes. No entanto, quando não existe movimento e o foco das cenas é o diálogo, alguns problemas começam a surgir e o filme perde um pouco seu ritmo – o que se faz totalmente compreensível, pois é aqui que ficamos à par das teorias que explicam as cenas que estão por vir.
Um outro ponto alto de “A origem” é a trilha sonora de Hans Zimmer, muito parecida com a criada por ele mesmo para “O Cavaleiro das Trevas”, também dirigido por Nolan. Trilha esta que consegue cumprir o objetivo, por exemplo, no grande clímax do filme – assim como feito também nos dois filmes do Batman – segurando a tensão por um longo momento e provocando em nós a aflição necessária para que cheguemos ao fim do enigma.
Entre sonhos, sonhos dentro de sonhos, limbo e realidade, “Inception” mostra-se um blockbuster com conteúdo. Enquanto Nolan deve estar em algum lugar provavelmente se divertindo com os espectadores que pagam duas ou três vezes o ingresso para ver seu filme, nós somos agraciados com a fantasia criada por ele.
Em tempos nos quais assistir blockbusters inteligentes e competentes é raridade, “A Origem” se transforma em um grande acerto, um filmaço, uma pedra preciosa escondida atrás de um enorme orçamento, e vai, com certeza, para a minha estante de filmes assim que ele for disponibilizado para home-video.
De hoje em diante, tomarei mais cuidado com meus segredos quando começar a sonhar.
by @gustavogui
Publicado originalmente no blog Caverna do Jedi

Pipoca&Letra 007.”Toy Story 3″

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Desde 1995, me encanto com as obras da Pixar.

Me lembro bem de ter visto um documentário falando sobre a produção do que viria a ser talvez o maior clássico do estúdio: como havia sido a escolha dos dubladores do caubói Woody e do boneco astronauta Buzz Lightyear; o storyboard completo do filme, e os bastidores daquela que seria a mais importante empresa de animação do planeta – foi amor a primeira vista. Me apaixonei pelo filme e pelos seus responsáveis.

Ganhei de aniversário no ano seguinte ao lançamento nos cinemas o VHS daquela obra prima: Toy Story. É difícil mensurar a tristeza que me abateu quando acabei estragando a fita de tanto assistir àquele maravilhoso longa de animação. Tristeza que foi substituída por outras fitas, mas que jamais me agradaram tanto quanto aquela.

Depois de conhecer outros filmes do estúdio, já com meus 13 anos e assistindo muitos e muitos filmes, tive a chance de ver Toy Story 2 – e mais uma vez me encantei com o universo dos brinquedos, me identificando cada vez mais com o menino Andy, e imaginando se meus bonecos ganhavam vida enquanto eu dormia cansado de tanto brincar com eles.

Quinze anos se passaram desde o primeiro longa animado da Pixar. Minha admiração cresceu a cada filme: Vida de Inseto, Monstros S.A, Procurando Nemo, Os Incríveis, Carros, Ratatouille, Wall-E e Up – cada um com sua peculiaridade, ritmo e personagens que me arrebataram. No entanto, nenhum deles me cativou tanto quanto a velha história dos bonecos devotados ao seu dono, que sempre acabavam se metendo em alguma confusão, e que sempre voltavam para casa no final da história.

Fui ao cinema assistir Toy Story 3 pronto para rever estes velhos amigos. Matar saudade e me encantar outra vez. Mas algo me dizia que desta vez seria especial.


O início do filme, mostrando como Andy cresceu, é de tirar o chapéu: impecável, divertido e sensível. Mas Andy agora está crescido, prestes a ir para a faculdade. E seus brinquedos, tão queridos na infância, estão guardados dentro de um velho baú e fazem de tudo para chamar a atenção de seu dono na ânsia de brincarem outra vez, ou de pelo menos serem tocados por ele.

Logo no início, já nos é dito que alguns brinquedos “se perderam pelo caminho”, e que um destino está reservado aos velhos bonecos: o lixo, a doação ou o sotão. Por se tratar do local mais próximo de seu dono, os brinquedos preferem, é claro, o sótão… mas essa decisão não cabe a eles.

Andy decide guardá-los (com exceção de um, que irá com ele para a faculdade), ao invés de abrir mão deles. Mas um engano acaba levando todos os bonecos à Sunnyside, uma creche que a princípio nos é exibida como um lugar feliz – as cores vivas e quentes nos fazem acreditar na pureza do local. No entanto, quando a noite chega, as cores assumem um ar tenebroso, cheio de sombras: Sunnyside se transforma em um lugar perigoso para os velhos brinquedos do Andy.

A profundidade da versão 3D não chega a ser ruim, mas outros filmes com certeza exploraram melhor o formato – o que, no entanto, não mancha nem um pouco a obra de arte que nos é apresentada.
Toy Story 3 é mágico. A trilha sonora que me conquistou nos dois primeiros filmes se repete com uma competência ainda maior aqui (a versão em espanhol de “You’ve Got A Friend In Me” é perfeita). Randy Newman cumpriu sua missão e me nocauteou outra vez.

As expressões de cada brinquedo são de dar inveja até em atores experientes (risos). O grande coração de Woody nos conquista mais uma vez. As cenas engraçadas ficaram por conta do boneco Ken e de um Buzz Lightyear como você nunca viu antes! Além disso, é preciso dizer que o óbvio não existe aqui – não exitem referências insistentes aos outros filmes da série ou piadinhas recorrentes, a originalidade deste terceiro filme impressiona.

Com vilões excelentes e uma narrativa bem construída, Toy Story 3 é sem dúvidas o mais sensível e o mais divertido da série (e talvez o mais emocionante da Pixar até aqui).

A sequência final consegue superar em muito alguns filmes de ação que vemos por aí – e o desfecho desta cena é de fazer qualquer marmanjo se debulhar em lágrimas.

E o que dizer do fim de tudo? A despedida é emocionante. Confesso que não consegui conter as lágrimas (que voltam aos meus olhos só de lembrar).

Eu, que convivi quase a vida inteira com os filmes, que acompanhei o crescimento da Pixar assistindo e admirando cada uma de suas obras, saí da sala de cinema com o rosto inchado de tanto chorar, com a sensação de que tinha acabado de me despedir de velhos amigos.

Um pedaço de mim ficou naquela sessão para sempre.


by GG (Publicado também na coluna “Cinema”, no blog Caverna do Jedi)

Pipoca&Letra 006.”Preciosa”

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Minhas espectativas relacionadas ao filme “Precious” cresceram bastante desde que foram anunciados os vencedores do Oscar 2010, dentre os quais vi ser entregue o prêmio de melhor atriz coadjuvante à excelente e estonteante atuação de Mo’nique e o surpreendente prêmio de melhor roteiro adaptado. Ainda assim, “Preciosa: Uma História de Esperança” (“Precious: Based on the Book ‘Push’ by Sapphire”) conseguiu superar tudo que esperava.

A história de Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe) nos envolve e causa as reações mais variadas em nós, espectadores. Raiva, surpresas, pavor e aflição são alguns dos muitos sentimentos que nos são transmitidos através de atuações que me deixaram boquiaberto do começo ao fim do filme dentro da sala do cinema.

Lembro-me bem do momento no qual a reação dos espectadores me chamou tanta atenção que, depois de um certo esforço para tirar os olhos da tela, voltei-me para a mulher sentada ao meu lado e a vi enxugar os olhos, ainda antes de 30 minutos de filme, percebendo então que a realidade exposta na grande tela começava a incomodar as pessoas que assistiam àquela impressionante pérola do cinema.

Escrever aqui sobre este filme não é uma tarefa fácil para mim, pois não há meios de falar mais profundamente sobre ele sem revelar alguns detalhes. Portanto me proponho aqui a fazer uma crítica superficial, analisando tecnicamente o que meus olhos presenciaram, destacando também os sentimentos que afloraram não só em mim, mas em muita gente dentro da sala do cinema.

O longa nos conta a história de uma jovem obesa e negra que sofre abusos físicos de sua mãe, tem uma filha portadora de Síndrome de Down e espera, aos 16 anos, seu segundo filho. Devido às inúmeras dificuldades e aos traumas sofridos na vida, Precious (Gabourey Sidibe) tem dificuldades de aprender, além de viver tendo devaneios, imaginando como seria sua vida se pudesse viver como uma garota normal. Quando a diretora de seu colégio nota suas dificuldades e decide ajudá-la, indicando-a para uma espécie de educação alternativa, tudo começa a mudar.

Ainda sofrendo com a violência da mãe em casa, Precious passa a frequentar a escola alternativa, onde conhece outras meninas problemáticas e uma professora dedicada, vivida pela excelente atriz Paula Patton (Deja Vu), que se apresenta como Sra. Blu Rain. 

Aos que pensam que a temática da educação alternativa pode funcionar como um tiro saindo pela culátra, já que foi tratado inúmeras vezes na história do cinema, ledo engano. “Preciosa: Uma História de Esperança” acerta em cheio quando joga na nossa cara toda a realidade vivida pela protagonista, que sofre não só com tapas e agressões físicas em casa, mas também com as palavras duras e ofensas proferidas por sua própria mãe.

O filme ainda conta com as boas participações da cantora Mariah Carey e do cantor Lenny Kravitz.
A direção de Lee Daniels nos remete à uma leitura visual do clássico, com uma câmera na mão e closes impecáveis, detectando as mais incríveis expressões faciais e corporais do elenco absurdamente competente.

Os diálogos pesados, o clima oscuro eos detalhes absurdamente mórbidos que se revelam ao passar do tempo nos confirmam o que o crítico Marcelo Forlani escreveu em sua crítica sobre o filme no site Omelete: “Em menos de 10 minutos de filme você vai entender que os seus problemas não são nada perto do que realmente sofrem algumas pessoas mundo afora”.

Seja para apreciar uma excelente obra de arte ou para comparar sua vida e seus problemas aos de Precious, não é permitido à qualquer apaixonado pelo cinema perder este filme. Uma graciosidade violenta, com atuações inacreditáveis e uma realidade arrebatadora. “Preciosa” não é só um título mas o mais justo adjetivo para definir esta pérola. Uma verdadeira preciosidade!

Minha única preocupação, no entanto, é com a classificação indicativa do filme, que no Brasil é de 16 anos – nenhum adolescente nesta idade é capaz de compreender algumas coisas que preferi não revelar neste texto, pois tratam de assuntos mórbidos e até certo ponto estarrecedores. Mas isso, é claro, não tira do filme o merecimento de toda minha admiração. 

“Precious” é simplesmente fantástico!



by GG (Publicado originalmente no “Caverna do Jedi”)
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