A Caixa do Inferno
Um conto de Gustavo Guilherme
O discurso era rude.
Saído dos lábios rachados do homem velho, o palavrório era vociferado com fúria: “É a caixa do inferno!” – repetia incansável.
No ônibus, alguns passageiros o encaravam com reprovação, outros fingiam prestar-lhe alguma atenção, e havia ainda os que riam de seu indumento ordinário – o terno imundo e aquela gravata amarela… Ou talvez estivessem rindo da ausência de alguns dentes na bocarra gritante. Ou das suas palavras encolerizadas.
“A maldita nos levará para o inferno!”, gritava com olhos esbugalhados. “É coisa do demônio! Estamos condenados!”, mas os passageiros seguiam incólumes ao discurso do velhote. Read more
Irmãos
Um conto de Gustavo Guilherme
“A razão vos é dada para discernir o bem do mal.”
Dante Alighieri
Assim que os vi naquela manhã, dei a eles nomes ordinários em minha mente fértil. E o fiz por não saber, na verdade, qual a alcunha real daqueles seres.
Batizei-os em silêncio de Bem e Mal. Também os imaginei crescer com tal educação: um antagonista do outro, não podendo, em hipótese alguma e jamais, conviver em harmonia. Não existiriam nunca quaisquer possibilidades de alguma sociedade entre eles. Um era vilão, o outro era mocinho. Um vestiria sempre o azul; outro, cinza. Estavam destinados a odiarem-se mortalmente para sempre.
Era sexta-feira quando decidi comprar mantimentos para casa quando, por acaso, dei de cara com a peleja. Bem e Mal se enfrentavam ferrenhamente no beco ao lado do Supermercado.
A violência que meus olhos enxergavam era louca, insaciável, incansável. Estaquei mudo, deixando as sacolas cheias de alimento caírem na calçada.
O Bem avançava contra seu oponente com absoluta ingenuidade e, em troca, recebia golpes certeiros na cabeça. Vestia-se como um príncipe, em azul, tecido raro. O Mal, coberto em panos banais e de cor acinzentada, investia pancadas agressivas no peito e no rosto do Bem sem dar tréguas, arrancando-lhe a vida aos poucos.
Eu, petrificado, observava calado a luta espantosa. Socos, pontapés, mordidas, palavras de ofensa, cuspidelas e hostilidade – tudo aquilo me parecia um espetáculo de gosto duvidoso, um circo de horrores cruel e fatal.
O Mal, infatigável, desviava-se facilmente das empreitadas previsíveis de seu inofensivo opositor. A batalha era covarde, Mal sempre fora o mais forte. Read more
Lições na Montanha – Ep. 03 (FINAL)

por Thais Lira
Dezembro de 1954
“Amigos queridos, peço perdão! Pois vos dei um péssimo conselho! Se estão lendo isso, peço que venham o mais depressa que possam. Parei durante aqueles dias e, antes de ser consumido pela terra, encontrei próximo ao lago de água ruim uma pequena árvore que dava folhas de guaraná. Com elas, preparei um chá que me trouxe ânimo e fôlego de vida novamente! Foi algo divino. Mal pude acreditar que, naquela época do ano, haveria algo tão bom por aqui. Acredito que estejamos no ano de 1954, mas não tenho certeza, pois meu calendário já é antigo. Como vêem, um ano se passou. Queridos amigos; preciso vos dizer: na escalada durante a montanha, encontrei coisas mui preciosas; pedras raras, água cristalina, etc. Mas também me deparei com animais sombrios; morcegos e outros bichos estranhos, mas nada me botou mais medo que a parte estreita que havia em uma caverna no caminho da montanha –era cheia de espinhos, feitos da própria pedra e era como a boca de um dragão, descrito por João, quando escrevia acerca do fim dos tempos. Quando senti que estava chegando ao fim, rezei ao Criador e me lamentei um pouco sobre meu cansaço físico, mas prossegui. Mal posso acreditar que cheguei até aqui. Tudo por aqui é lindo, perfeito. É como se estivesse de volta ao Éden, perante a face do supremo Criador. Como fui capaz de questionar-me de sua existência? Só por ter sentido que meus pés já não poderiam andar sozinhos? Nunca pensei que sobreviveria. Jamais pensei que pisaria neste chão. Se pudessem sentir o descanso que sinto. Se pudessem sentir o doce aroma destas flores. Se pudessem sentir a paz e o conforto sublime dessas águas. Queridos amigos! Se vocês encontrarem outros mapas por ai, não tenham medo algum em segui-lo. Em cada passo, a dor virá, e a fome, e o cansaço, e a sede, e as dúvidas… Mas não pensem em voltar atrás! Descansem um pouco quando chegarem diante da montanha. Ela vai te impor muito medo, porém, no dia seguinte, sentirá o vigor em cada passo teu. E venha! Venha sem medo, pois o que há aqui do outro lado é para os fortes, que não seguram seus passos. É isso que vos digo, enfim.”
FIM
Lições na Montanha – Ep. 02

por Thais Lira
Janeiro de 1953
“Queridos amigos, se lembram do conselho que dei, para que seguissem o mapa? Ignorem, pois desfaço meus conselhos. E também vos exorto a não acreditarem que há um Criador! Há animais horríveis por aqui. Não podem imaginar o quanto este lugar me faz mal. Passei por muitos lugares e meu corpo esta cansado. Paro para descansar em uma pedra qualquer, mas logo sou despertado por minha fome. Por aqui, estou me alimentando de insetos e folhas que encontro pelo caminho. Sei que isto parece ruim, mas na situação que me encontro, é um banquete! Amigos, eu pensei que logo encontraria o que tanto procuro. E depois de muito caminhar, cheguei aqui. Estou diante de uma montanha e ela é tão grande quanto nos filmes. Tão grande quanto é descrita nos livros. Parece impossível atravessá-la! Para terem uma idéia, é tão alta, que não consigo enxergar nem o sol nem a lua daqui. Pelo meu calendário, estamos no verão, por isso todo este calor. Imaginem esta montanha sendo exposta diante do sol? Para mim, que estou aqui do outro lado, é de me arrancar o pouco juízo que me resta! Aqui perto há um lago, mas a água é horrível e tem gosto de barro. Sinto sede! Só molho os lábios quando é necessário. Minhas roupas fortes, de puro couro, não são mais úteis. O calor é tão grande que elas parecem se derreter em meu corpo. Se existe inferno, estou pisando nele! Por isso vos digo, amigos queridos, não sigam este caminho! A não ser que queiram morrer consumidos pela terra, pois este é o meu destino.”
CONTINUA…
Lições na Montanha – Ep. 01

por Thais Lira
Sexta-feira, junho de 1952
Olá amigos. Estou deixando essa carta a vocês, pois encontrei um mapa há poucos dias. Nele está um caminho o qual devo seguir. E sinto que já perdi muito tempo. Por isso, preparei lenha, comida, roupas fortes, e parti. Acho que vocês deviam fazer o mesmo.
Ouvi dizer que, para onde vou, existe água limpa e pura. Existem também frutos perfeitos e pedras preciosas a beira de lagos. E ouvi dizer que a areia é branca como as nuvens. Precisei mesmo partir! Cansei-me de ficar aqui, sentado nesta cadeira, fumando esse velho cachimbo, vendo as garotinhas se venderem para homens bem vestidos. Tive que ir! Estou exausto dessa vida solitária que tenho tido aqui.
Vocês são meus únicos amigos. E sei que irão me compreender. Não pensem em chamar a polícia. Estou muito certo da escolha que fiz. Podem notar que deixei toda a bebida que ainda restava na botija. Não quero ver nada além do que devo, pois se um dia me encontrarem, poderão dizer que tive alucinações… E não quero!
Prometo que pelo caminho, enviarei cartas. Pois levo comigo um pombo correio que comprei com as últimas moedas que tinha.
Nos falaremos em breve, amigos. Até mais
CONTINUA…
Sagrado Segredo

Um conto de Gustavo Guilherme
Beijou-a nos lábios densos e rosados, pressionando-lhe o corpo delgado contra a parede, atrás da velha igreja. As línguas se abraçavam em carícias delicadas, as mãos dele envolvendo a cintura fina da moça, ardor juvenil sob as sombras que incidiam do templo.
No interior do santuário, o pastor gritava exigências que não cumpria e mandamentos que inventara às pressas minutos antes daquele culto. Uma dúzia de crentes gritava júbilos impensados, reflexos involuntários da rotina diária de reuniões monótonas.
Enquanto ouviam os mantras evadirem das janelas, o casal de adolescentes se abraçava em carinhos indiscretos – como faziam todas as noites. Read more
As Desventuras do Sr. Quadrado 004 – “O Mangue Negro”
Depois de muitas andanças, o Sr. Quadrado agora se deparava com uma paisagem inóspita e assustadora: era quase noite e ele deveria atravessar um mangue o mais rápido possível para encontrar abrigo e, quem sabe, gente.
Naquela tarde, já rio a dentro em sua balsa primitiva feita a duras penas durante a manhã, via o dia ir embora com o Sol ao horizonte. Longe da civilização, o dia realmente acaba quando a noite começa. Não havia como voltar contra a corrente e nem prosseguir com a balsa, uma vez que a mangue e o rio iam se tornando um só. Seguia então apenas com sua mochila e com o que Deus lhe dera. Read more
As Desventuras do Sr. Quadrado 003 – “A Epifania”
O Sr. Quadrado acabava de garantir uma vaga de emprego numa grande empresa multinacional. Era uma noite especial e ele estava se preparando para sair de casa para comemorar com família e amigos essa nova fase em sua vida. Pobre coitado, na verdade não tinha noção do que seria essa “fase”.
Já um pouco atrasado e, pra piorar, nervoso por não encontrar as chaves do carro; ele procurou em todos os lugares possíveis e impossíveis, mas não a achava. Estressado e sem forças, sentou no sofá completamente desolado. Depois de um tempo, ao observar a mesinha no meio da sala, viu ali a bendita chave.
Ao vê-la sobre a mesa, bem a sua frente, teve uma epifania. Um momento de iluminação, um pensamento extremamente complexo diante de um momento simples do cotidiano. Tudo que sempre procurou, assim como a chave, estava bem na sua frente, todavia não conseguia ver. O que procurava era ele mesmo. Não uma busca espiritual barata, vendida por alguns livros de auto-ajuda com menos conteúdo que uma embalagem de papel higiênico, mas algo real e palpável. Precisava de uma vida nova baseada verdadeiramente no que acreditava, sem hipocrisias, ou pelo menos quase sem.
Mesmo sem deixar de comparecer ao jantar, seus pensamentos divagavam em outro lugar. Se o leitor me permitir descrever o Sr.Quadrado com um neologismo, nesses momentos de séria dissonância cognitiva que vivia (antes de partir), era então homem “idéia-fixa”. Porém só idéias, sem planos, pois como ele mesmo dizia: fazer planos muitas vezes nos dão a impressão errada que temos o controle do futuro em nossas mãos.
Passavam-se os dias. Já não suportava tudo aquilo. Toda aquela situação, a vida que vivia já não fazia mais sentido. Era necessária uma mudança e deveria ser radical. Tinha que deixar tudo pra trás, ainda que temporariamente. Tudo que sempre foi, enclausurado dentro de si mesmo, agora deveria aflorar. Não era viver a vida que “todos querem”, baseando-se em luxos ou sonhos pré-produzidos em massa por uma sociedade capitalista, e sim viver e fazer o que precisava ser feito, ou seria perseguido o resto da vida pela culpa de não viver conforme sua própria natureza, mas conforme os outros esperavam ou impunham.
Uma manhã de sol radiante, poucas semanas após o “incidente”, o futuro mochileiro errante partiu…
by @DiegoRuas, que também publica os contos do Sr. Quadrado no Subir Quadrado
As Desventuras do Sr. Quadrado 002 – “Um Estudo Vermelho” (Parte 2)
Sob aquela situação complicada, uma resposta inesperada de vaias, e uma figura que ainda não tinha dado suas caras: era o homem que mandava e desmandava naquele lugar, José.
Quando a pequena multidão percebeu sua presença, mudou o coro de vaias para um “E agora José?”. O Sr. Quadrado ficou perplexo e sem entender nada, afinal até agora, desde quando chegara na vila, não tinha ouvido falar no sujeito. José se aproximou dele e o chamou para conversar em um lugar menos tumultuado, a sua casa. Chegando lá, após educadamente oferecer um café, Zé (como pediu para ser chamado) começou a falar:
- Você está louco? Esta lenda existe nessa vila há muito mais tempo do que você existe nesse mundo. Por acaso não tens respeito pelos mais velhos?
- Mas é claro que tenho – respondeu o Sr. Quadrado, mesmo confuso com a coerência da pergunta – só que a lenda não é uma pessoa, é uma mentira, e você deve saber disso pois parece ser um homem esclarecido!
- Esclarecido? Depende do que quer dizer. Se for sobre minha cor de pele, obviamente sou… tu mesmo tens olhos pra ver isso. Quanto ao outro significado, creio que também sou. Mas façamos o seguinte, você sai dessa vila hoje e tudo volta ao normal. Aqui é um lugar perigoso, acidentes estranhos acontecem de vez em quando sabe? Se precisar de dinheiro para continuar sua jornada pra sei lá aonde, eu posso te ajudar, mas deve sair hoje daqui!
O Sr.Quadrado percebendo a situação de ameaça… não aceitou dinheiro, mas aceitou sair… sair dali, e não da vila, pois não iria deixar tudo como estava.Fingindo que nada aconteceu, pensou num plano. Tomou a decisão: devia usar sua camisa vermelha na frente de todos na vila e desafiar a morte. E foi o que fez.
No dia seguinte após dormir pelas redondezas da vila, fazendo todos acharem que havia ido embora, o Sr.Quadrado voltou ao vilarejo com sua camisa vermelha e lançou ao ar suas palavras para todos ouvirem, lançando um desafio a tal maldição da morte. Afinal, sua camisa não possuía os elementos tóxicos das camisas vermelhas que eram confeccionadas ali na vila, então em tese estaria a salvo. Mas será que sua ousadia não teria um preço?
Não foi preciso muito tempo pra saber a resposta dessa pergunta. Ouve-se um estrondo. Algumas pessoas pensaram ser um trovão, pois o céu estava escuro e ameaçando chuva; outras, que a maldição havia escolhido seu alvo, mas o Sr. Quadrado ao sentir seu peito queimando estranhamente por dentro, confirmou o que mais temia: havia levado um tiro.
Começou a chover.
Seu sangue escorria e se misturava com a água. O vermelho, tão temido naquele lugar, se mistura com toda a paisagem. O momento e sua poesia lembram uma cena de filme, dramática, triste. De repente o tempo parece parar e tudo se desfaz.
O Sr. Quadrado acorda. Fora tudo um sonho, ou melhor, um pesadelo. Após largar tudo o que tinha e se lançar ao mundo, essa fora a primeira noite mal dormida do seu êxodo. Era seu primeiro dia fora de um sistema e de uma sociedade que chamava de casa, mas mal esperava ele que o pesadelo não chegaria nem perto do que ele estaria para enfrentar nessa longa jornada.
@DiegoRuas escrevia este conto cheio de empolgação quando de repente… acordou.
O Falso Enterro do Outro Eu
Um conto de Gustavo Guilherme
Dia desses me olhei no espelho e vi um cara estranho. Era eu, envelhecido e surrado pelo sol de cada manhã; olheiras fundas e uma presente ausência de um sorriso não forçado, feliz e autêntico.
O cara estranho me aborrece. Ele sou eu fingindo ser outro alguém. Faz as coisas que eu não faço, come hambúrgueres congelados que viu em propagandas de TV, consome o mundo enquanto o mundo lhe consome, põe palavras ásperas na minha boca e admira telhados que não são meus. Ele é o cara que sai de casa, geralmente bem vestido e sem o meu costumeiro All Star de todo dia, vai até a padaria e compra coisas que não vai comer. É a sombra que me assombra, o devorador dos meus prazeres… o responsável por despedaçar as pétalas de cada sonho que construo e reconstruo em silêncio todas as noites.
Eu mesmo o criei, o outro eu. O moldei com minhas próprias mãos. Manipulei meu ódio e meus amores fúteis até formar aquele ser bizarro que me engoliu da alma o elmo que me protegia de mim mesmo.
Um dia acordei e o cara estranho estava morto no chão da sala. Com os miolos espalhados numa poça de sangue, o meu eu, algoz de mim mesmo, jazia podre diante de mim… ou será que o defundo era eu?
Corri até o quintal carregando-lhe o corpo, descansei-o num canto e cavei um buraco. Suór, poeira e sangue. Cansei e me joguei, só para ver se o “presunto” caberia no buraco que cavei.
Estranho… me senti confortável na cova e dormi por algumas horas.
Quando acordei, espantei-me por alguns intantes… mas o espando logo se foi: lá estava eu, de volta ao meu lugar, jogado ao chão daquela sala, ainda tão morto quanto sempre estive.
by @gustavogui





























