Crônica Encomendada: “Está Lá”

por Gustavo Guilherme
Casar é abandonar uma rotina e abraçar outra. É tirar o trem dos trilhos confortáveis da família e se aventurar na ferrovia dos braços de um homem que não é seu pai. É observar-se partindo… partindo de casa e partindo o coração de sua mãe que chorará escondida pelos cantos, ocultando de outros olhos a saudade que fica.
Casar é amar um desconhecido e, ao mesmo tempo, conhecer aos poucos quem se ama. E não se engane, essa tarefa é complicada. Conhecer alguém a cada dia só para, depois de décadas, descobrir que ainda não o conhece tão bem assim. É missão ingrata! É de roer as unhas do pé! É de colher cabelos antes da ceifa!
Nos primeiros anos, você recolherá cada beijo do outro como se fosse um fruto mágico nascido da árvore mais linda e frondosa do planeta. Abraçará o ser amado como quem abraça o mundo, o seu mundo. Sentirá o mesmo perfume todos os dias, mas este lhe parecerá diferente a cada novo amanhecer. Você se sentará diante do outro observando-lhe a cor dos olhos, a textura da pele e a formosura dos lábios. Deitará o ouvido no colo para ouvir segredos de um coração que lhe jurou fidelidade. Ouvirá juras de amor em cada gesto, toque ou silêncio do ser a quem se ama.
Mas não se iluda com perspectivas de contos de fadas. Nem todo final é feliz e nem todo fim é para sempre.
Com o tempo, dificuldades assolarão a casa. Tempestades em forma de contas a pagar inundarão os pensamentos de ambos. Terremotos fantasiados de desconfiança (ou desemprego talvez, ou dívidas, ou a saudade dos pais) sentar-se-ão na mesma mesa para compartilhar o jantar. Tudo parecerá abismo. Tudo aparentará inconsistência. Todo amor estará tímido, acanhado e escondido em algum canto da alma.
Mas é aqui, neste lugar sombrio, que reside o segredo, o ingrediente secreto das almas amantes.
Apesar da aflição e do medo, o beijo ainda será o mesmo – mas terá um novo tempero. O abraço ainda estará aquecido, apesar da nova taquicardia. O coração ainda baterá descompassado, mas lhe confessará declarações de amor muito mais maduras e muito menos melodiosas. Os olhares se cruzarão entre problemas e crises para, enfim, fecharem-se mutuamente em respeito ao beijo que virá. E toda dor e medo se converterão em piadas noturnas antes do sono reconfortante, antes da reprise de preocupações do dia seguinte.
Fica, portanto, o alerta. O amor se esconde, mas não se vai. Apesar dos pesares, ele sempre estará lá.
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Escrita originalmente para ser lida em um Chá de Panela, ou algo do tipo.
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2 Comentários em: “Crônica Encomendada: “Está Lá””
























Marcus Paulo
Eu sou suspeito de falar, mas gosto MUITO dessa crônica. E te admiro como escritor e pessoa que é. Vamos com força TOTAL Território7!!!
Jôder Filho
Marcus Paulo, TODOS que conhecem o GG são suspeitos pra falar. Meu irmão JÊMIO. Hahah. Ótimo texto, man.
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