Poderes Ocultos – Capítulo 11: Paciente
by Joder Filho A atendente chorava sozinha. Como tantas outras noites de sua vida, a jovem se via perdida, sem respostas e com o coração apertado, orando pra que tudo aquilo acabasse logo. Em geral, adormecia assim, embalada pelas lágrimas, esperando que o dia simplesmente viesse e que os raios do sol e a luz magicamente mandassem embora todo e qualquer problema. Sentada sozinha em sua cadeira, praguejava contra si mesma, lamentando o fato de não estar lá. Ela deveria cuidar dele, afinal, ele sempre esteve lá por ela. Ainda enxugava as lágrimas quando as duas irromperam pela porta, carregando pelos braços um rapaz ...
As Crônicas do Fim – Episódio 10: “Azul”
by Gustavo Guilherme Antes que pudesse verificar a origem do disparo, notei que o monstrengo fora baleado na testa, em cheio, e agora seu corpanzil aniquilado despencava em minha direção. Numa tentativa insana de me desviar da aberração, tropecei no ogro gordo e caí. Meu queixo encontrou o chão com um impacto que me deixou tonto. Atordoado, escutei um segundo tiro e o barulho deste agravou minha confusão. Eu estava afoito, patético como uma barata em fuga. Se não me concentrasse, o monstro logo me esmagaria. Rastejei depressa para algum canto da sala, de olhos fechados e gemendo. E assim que minhas mãos ...
- Pipoca&Letra 015. “Super 8″
- Pipoca&Letra 014. “VIPs”
Pipoca & Letra
As Crônicas do Fim – Episódio 07: “Carpe Morti”
by Gustavo Guilherme
O ácido, o corpo e a proximidade do perigo. Tudo me envolvia no caos.
Pernas trêmulas e o frio espantoso das mãos, o pulsar acelerado no peito, a velocidade da imaginação a considerar possíveis conseqüências caso falhássemos, sensações que se agitavam dentro de mim. Qual seria minha sentença caso me pegassem? Qual seria o preço a pagar pela morte do tal Homem-sem-nome? As questões me perturbaram por alguns instantes.
O sorriso ousado de Madalo, exposto em sua face pálida como se fosse uma cicatriz de seu sarcasmo, aumentava ainda mais minha preocupação. O simples som da palavra “improvisar”, pronunciada por ele há poucos minutos, me causara arrepios. Entretanto, a esperança de fugir dali e descobrir o que realmente estava acontecendo me tranqüilizava aos poucos.
Observei mais uma vez o que ainda sobrava dos restos apodrecidos de minha vítima sem nome, cacos de vidro misturados a pedaços queimados de tecido humano e muito sangue. O odor da morte é enlouquecedor e ainda mais terrível quando envolve ácido e carne humana. Minha cabeça doía, e a culpa era daquele maldito fedor.
– Preparado, Lazarus? – a voz de Madalo parecia divertida e a feição de seu rosto era como a de um caçador que se prepara para agarrar a caça, matá-la com as próprias mãos e, assim que for conveniente, comê-la.
Não respondi a pergunta. Simplesmente o encarei, olho no olho. E então houve um breve e tenebroso silêncio. Pude ouvir minha respiração e, com ela, a quietude que precede a batalha.
Madalo caminhou calado e se posicionou próximo à porta, ficaria atrás de nossos alvos assim que ela se fechasse. Eu o acompanhei.
– Assim que a porta se abrir e o primeiro Agente entrar, eu o atacarei. – sussurrou Madalo – Enquanto isso, você cuida do segundo homem… Mas não se esqueça de fechar a porta.
– E se forem mais de dois, Madalo? – perguntei.
– Serão dois.
Sua certeza não me confortava. Pelo contrário, me intrigava. Como ele poderia estar tão certo que apenas dois homens entrariam na sala? Por que os chamava de Agentes? Por que parecia estar tão confortável naquela situação de risco? Apesar das dúvidas, aquele não era o melhor momento para saná-las.
E então, quando novas questões eram levantadas em minha mente, a porta se abriu devagar.
Madalo esperou paciente até que o primeiro Agente se afastasse um pouco da porta e o atacou, agarrando-o pelo pescoço com uma chave de braço. O Agente, porém, usou o peso de seu próprio corpo em seu favor, inclinando-se contra Madalo, levando ambos ao chão. Poucos segundos depois, meu alvo entrava no quarto.
Ambos Agentes usavam roupas brancas e longas como as de um enfermeiro; calçavam botinas igualmente alvas e, estranhamente, vestiam máscaras de gás avermelhadas que encobriam seus rostos. Das mãos do primeiro homem, um molho de chaves voou para debaixo de um dos leitos assim que este fora atacado por meu parceiro.
Assim que notou a investida de Madalo, o segundo Agente tentou escapar, mas consegui segurá-lo a tempo, agarrando-me à sua roupa e arremessando-o violentamente contra a porta, que se fechou com violência. Meu rival estava no chão, mas ainda não me parecia inconsciente. Com fúria, ergui o segundo Agente pelos braços e pressionei seu corpo contra a parede, apertando seu pescoço com minha destra.
Naquele momento, uma constatação me surpreendeu. Algo em mim se transformara por completo. A brutalidade de meus golpes não me assustava, até me sentia confortável com a agressividade da cena que se formava diante de meus olhos. Meu coração, outrora acelerado e aflito, batia cadenciado e calmo. A tremedeira de minhas pernas dera lugar à firmeza dos ossos e a respiração débil era agora uma seqüência de longos e tranqüilos suspiros. Em contrapartida, minhas mãos se fechavam com imensa fúria ao redor do pescoço de meu adversário que, a essa altura do embate, já não se defendia.
Mesmo sem saber dizer o motivo, eu me sentia bem. Contemplar a agonia da vítima aprisionada em meu golpe certeiro me causava júbilo. Mas, apesar da satisfação que me contagiava, tinha a sensação de estar sendo dominado por outro alguém, um Lazarus diferente. Outro eu. Um parasita. E se não fosse a interferência imediata de Madalo que, tendo cumprido sua parte do plano, apareceu para acalmar meu ímpeto assassino, teria matado aquele homem. E, se isso tivesse acontecido, o tal Agente teria sido minha segunda vítima mortal em menos de uma hora. Leia Mais
#ACdF: Aviso de adiamento – ATUALIZADO
Desculpem o transtorno.
Sei que um novo episódio de “As Crônicas do Fim” estava programado para ir ao ar hoje, mas infelizmente teremos que adiar para amanhã. As coisas estão corridas e a vida, atarefada.
Amanhã à tarde, sem mais adiamentos, episódio 7 de #ACdF aqui no T-7!
@gustavogui
UPDATE
Buenas, gurizada!
O novo episódio está pronto, mas ainda precisa de revisão. E, como hoje é sábado, dia de relaxar e curtir a família, é inevitável que adiemos a publicação para segunda-feira. Mas não se preocupem, o atraso será compensado (vão reconhecer isso – ou não – assim que virem o tamanho do capítulo que está por vir – rsrs). Mais uma vez, desculpem o transtorno.
Carpe Morti!
As Crônicas do Fim – Episódio 06: “Plano de Fuga”
by Gustavo Guilherme
Madalo me encarava sorridente enquanto o corpo do Homem-sem-nome derretia aos poucos bem diante de nossos olhos.
– Parabéns… – seu sorriso se desfez como um vulto – …imbecil.
– Como é? – ainda sentia o peito batucar acelerado e a respiração falhar – Você me chamou de…
Madalo completou minha indagação.
– Imbecil!
Apesar de tecer respostas em minha mente, meus lábios nada disseram. Os olhos de Madalo, que há poucos segundos me aplaudia, aparentemente feliz ou satisfeito, agora eram severos, sisudos, e me fitavam com alguma ansiedade que, em alguns instantes, eu passaria a conhecer.
Madalo agora andava em volta de si mesmo.
– Em poucos minutos esta sala estará cheia de Agentes – a expressão me fez soluçar – Virão depressa para a ronda diária. Quando entrarem por aquela porta, encontrarão um homem morto e podre no chão e, provavelmente, tentarão dar um jeito em você… e em mim também, é claro.
Ele parou por alguns segundos, olhando o vazio. Sussurrou pensamentos, gesticulando-os no ar. O rosto pálido em contraste ao vermelho da barba e dos cabelos dava a Madalo a aparência de juventude, mas sua voz era calma como a de um sábio. Ele parou de repente e um novo sorriso rasgou-lhe a face devagar. Ele deu dois passos silenciosos em minha direção e pude ver algum tipo besta de esperança em seus olhos.
– É nossa chance.
– Nossa chance de que? – indaguei.
– Fugir, seu imbecil. Cair fora, nos mandar desse inferno. Leia Mais
Criatura amarga
O diabo que se apaixonou por Deus
por Paulo Brabo
Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.
Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.
– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.
Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.
– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.
– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.
– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.
– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.
O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou. Leia Mais
Qual o sentido de fazer e ler literatura hoje?
por Ítalo Meneghetti
Nos diversos lugares aonde vou, sempre encontro alguém disposto a me perguntar se existe algum sentido para a literatura no mundo contemporâneo. Confesso que a resposta é, a um só tempo, óbvia e complexa. Explico. A força do pensamento literário é inegável em qualquer tempo e lugar. Por isso, óbvia a resposta. Porém, a literatura se constrói da substância mais abstrata do pensamento humano e, portanto, num mundo cada vez mais materialista, sem ideais nem sonhos, no qual o imediatismo tem sido a marca mais consumida e consumada das sociedades, pode ser que a literatura esteja fora de lugar e tempo. Vejamos.
Todos sabemos que o ato da leitura literária é sempre uma viagem. Mais ainda: que escrever literatura é verdadeira ousadia e desafio. Que o digam os escritores de carreira. Afirmam os neurolinguistas que a escrita literária mobiliza toda a nossa capacidade neuronial, bem mais do que indecifráveis equações matemáticas ou mirabolantes jogadas de xadrez. O texto literário por escrever é a requisição cerebral em toda a sua complexidade, verdadeiro exercício de comunicação entre neurônios, algazarra de sinapses em nossa massa cinzenta.
Se a leitura do texto literário é sempre um acontecimento especial em nossas vidas e que pode ser, definitivamente, marcante e transformador, imaginem o que a escrita do texto literário deve ser na vida de alguém?
Verdadeiro impacto, a escrita do texto literário desloca a pessoa para dimensões impensáveis de si mesma. A remete a lugares da alma nunca antes sondados. Atiça o espírito no rastro da luz, ainda que o texto só “fale” de trevas (humanas), como em Charles Bukowski, Plínio Marcos e Nelson Rodrigues, por exemplo. Afinal, literatura não é religião e nem se pretende, no sentido institucional e formatador de pessoas. E espírito é bem mais termo para expressar a potência da mente humana diante do enigma da existência do que conceito dogmático de falaciosos discursos sobre quem somos em nome de uma noção de Deus e todo o assédio e sanha financeira e política que isso pode gerar. Leia Mais
Curta-Metragem: “Inside”
As Crônicas do Fim – Episódio 05: “A Testemunha”
by Gustavo Guilherme
Na imagem refletida no espelho, o homem apertava meu pescoço com uma chave de braço.
Durante os últimos minutos antes da agressão, minha mente se aplicara a criar teorias relacionadas àquele lugar. Imaginava outros tempos, relembrando a velha Minos e associando aquele local onde despertara com o antigo hospital da cidade – esta hipótese era a mais provável. Considerava também a possibilidade de não estar mais em Minos, de ter sido resgatado por alguma tribo ou, talvez, ser vítima de algum seqüestro. Talvez algum líder precisasse de novos escravos para manter sua cidade-governo funcionando, para sustentar seu pequeno reino particular. Ou talvez algum exército, na ânsia cega de vencer a guerra, tivesse me raptado para me transformar em soldado.
Meu pensamento tecia novas teorias e imaginava novas possibilidades quando o homem me atacou.
Assustado, tentei fugir do golpe. O homem, porém, apertou ainda mais a arma dos braços ao redor de meu pescoço, e seu rosto adotou um tom avermelhado, raivoso. No espelho, somente parte de sua face era visível. Meneei a cabeça e experimentei cotoveladas em seu estômago, mas ele pareceu não sentir nada. Enquanto me movimentava loucamente, sua investida inabalável começava a me enfraquecer. Minha garganta começou a doer. Sem muitas opções, decidi tentar uma nova defesa. Com a força que ainda me restava, acertei uma primeira cabeçada em seu queixo e o homem tremeu, emitindo um estranho gemido. Investi o segundo golpe e, desta vez, o Homem-sem-nome afrouxou a chave de braço, me empurrando com força contra o espelho.
Uma tosse grave e rouca fugiu de meus lábios. Leia Mais
Crítico Literário
Curta-Metragem: “The Raven”
Curta metragem independente. Custou apenas 5 mil dólares. Curtiu?





























