Poderes Ocultos – Capítulo 12: Visitante

março 12, 2012 | 2 Comentários

by Joder Filho

– Tá tudo bem, pai? – a voz de Susana acordou Augusto dos devaneios em que se encontrava – O senhor está estranho.

– Não, querida. Deve ser impressão sua – disse exibindo aquele sorriso paternal que tanto agradava a jovem. Estendeu o braço e ela sentou-se ao seu lado, envolvida no abraço dele. – Só estou preocupado com algumas coisas, nada demais.

– “Preocupado” é a melhor palavra que encontrou pra tudo isso? – disse ela se divertindo – Eu, no seu lugar, já teria fritado todos os miolos.

– Pra sorte de vocês, eu ainda tenho o controle disso – ele disse numa risada leve. – Como se sente, meu amor?

– Nem sei dizer – disse levantando as mãos – Acho que a melhor palavra pra definir é “feliz”. Simplesmente feliz. Depois de tanto tempo lutando e orando, finalmente Deus me cura do câncer num milagre, e ainda me recupera tudo em menos de dois dias.

– E te deu um dom. – Augusto completou.

– A cereja do sundae – ela brincou.

Ficaram calados por um tempo, contemplando o campo vasto e vazio na fria madrugada. A lua cheia iluminava até onde se podia ver da propriedade de dona Regina. “Aqui será perfeito para treiná-los” Augusto se pegou pensando. “Principalmente Arnaldo. Ou moldo aquele garoto da maneira mais correta possível, ou terei um grande problema nas mãos. Maior até que…”

– Você está pensando no Arnaldo – Susana disse num tom mais afirmativo do que interrogativo. Por um momento Augusto a olhou espantado. Ela simplesmente encarava o campo, fitando nada em especial, só deixando os olhos correr pela imensidão da noite. – Certo? – ela completou virando o rosto e o olhando nos olhos.

– Achei que só dona Regina pudesse ler mentes. – ele disse.

– Não preciso disso pra ler você, pai.

– Verdade. Você sempre me entendeu e me conheceu bem. – ele puxou a cabeça dela com delicadeza e a beijou por sobre os longos cabelos ruivos. – Você deveria se deitar. Teremos um longo dia amanhã.

A garota ia protestar, mas sentiu o sono chegando como de supetão e nem quis argumentar. Murmurou um “boa noite”, beijou o pai e se encaminhou para dentro da casa.

Augusto se manteve em silencio, observando enquanto ela entrava e fechava a porta de madeira atrás de si. Nesse se espaço de tempo se manteve em silencio absoluto. Assim que se garantiu que a filha não voltaria, voltou a fitar o campo. Fixou os olhos em um ponto em meio às arvores. Sabia que ele estava ali. Sabia que o observava. E sabia que por mais que vinte ou trinta metros do campo os separassem aquilo não seria problema nenhum para o visitante.

– Precisamos conversar. – disse num tom de voz que beirava o sussurro. Esperou alguns segundos sem resposta. – Agora. – disse resoluto.

– Gostaria de informar que se tom de voz não me agrada, pastor. – a voz surgiu repentina ao lado de Augusto.

Ele se virou e viu surpreso que a seu lado estava a figura de um homem alto, esquálido, de nariz fino e olhos negros e sem brilho, que calmamente fitavam o campo. Os cabelos negros estavam arrumados e não se mexiam aos movimentos do vento da madrugada. Trajava uma camiseta dos Rolling Stones, uma calça jeans e um par de tênis de corrida. Virou-se e encarou Augusto nos olhos – ou devo-lhe lembrar quem é que comanda quem aqui?

– Desculpe-me, ainda estou me adaptando a isso.

O estranho nada disse. Augusto percebeu que era a deixa para explicar o que o afligia.

– Estou com um problema. – começou.

– Então você é feliz, eu tenho vários. – rebateu irônico.

Augusto limitou-se a continuar sem comentar.

– É Arnaldo. Estive na cabeça dele e quase não agüentei o choque. Ele é muito mais poderoso que os outros. Muito mais instável. Joga tudo isso mais aquela rebeldia e aquela petulância e ele se torna um perigo maior do que imaginávamos. Precisamos…

– Maior do que você imaginava Augusto. E não, não “precisamos” fazer nada. Acha que não estou ciente dos poderes desses moleques? Eu os escolhi. Cada um para um propósito e uma hora certa. Eu sei o que faço Augusto. Estou nesse planeta de bosta a tempo suficiente pra pensar meus atos com antecedência. Então não me venha com choramingo sobre não conseguir controlá-los. Quem comanda essa joça sou eu.

Augusto se manteve em silencio por um instante. As reprimendas eram sempre humilhantes para alguém do porte dele. Embora soubesse que não era o comandante real de tudo aquilo, algo não se encaixava. Porque dar tanto poder a alguém tão instável e perigoso quanto um garoto rebelde e burro.

– Eu sei o que está pensando, reverendo. – o visitante continuou – e já te aviso que tenho um propósito para o garoto. Se seu pai tinha dessas coisas, não há por que eu não ter, não é mesmo? Afinal, ambos sabemos que eu sou o sucessor nato.

Augusto sentiu um calafrio ao ouvir a menção de seu progenitor, mas conseguiu esconder isso do visitante. Ou pelo menos o estranho ignorara, não saberia dizer exatamente.

– E quanto aos outros? – Augusto limitou-se a perguntar.

– Já estou cuidando deles. Ainda não estou em forma plena, por isso tenho que contar com o serviço dos seus semelhantes. – disse com visível desprezo e repulsa.

– Eles virão pro nosso lado?

– Duvido. A visão deles foi diferente. Ainda não sei quem a enviou, mas assim que descobrir… – deixou em suspenso. Ambos sabiam do que ele era capaz.

– E quais as ordens por agora?

– Descansem. Eu enviei um grupo de policiais pra dar cabo dos moleques e chamar a atenção das autoridades. Isso deve cobrir a fuga da velha e o desaparecimento de alguns de vocês. Aproveitem o tempo pra treinar a partir de amanha. – ele se levantou e disse sem olhar para Augusto – Alguém ou alguma outra coisa está entrando no jogo, e preciso descobrir quem é.

Augusto pensou em dizer algo, mas o visitante já havia desaparecido, tão rapidamente quanto viera, e talvez até mais silencioso.

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2 Comentários em: “Poderes Ocultos – Capítulo 12: Visitante”

  1. Jefferson Metalnerd

    em março 14th, 2012 9:45

    finalmente. achei q os contos ñ fossem continuar,
    e confesso q achei q esse seria morno, mas a aparição do visitante trouxe ainda mais questionamentos, e algumas poucas respostas, so espero ñ ter q esperar ate o ano q vem pra poder ver o resultado. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Sabrina

    em março 14th, 2012 12:36

    Muito bom….não vejo a hora do próximo.
    Curiosa de mais!!…kkk

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